sábado, outubro 21, 2017

Comparar o incomparável


Como disse e bem Sérgio Conceição na conferência de imprensa de ontem, um treinador é que toma as decisões. E se as entende justificar ou não, obviamente é uma questão da sua consciência. No entanto, o treinador do líder da Liga NOS errou, e a dobrar.

Em primeiro lugar porque a necessidade de justificar a decisão não se prende com o interesse dos jornalistas, mas sim com o facto destes traduzirem aquilo que é o interesse do público. Não haverá certamente um adepto dos dragões que não se questione porque Casillas foi para o banco, quando nada o fazia prever. Os jornalistas não são mais do que um veículo de comunicação, neste caso entre os adeptos do Porto, e do futebol em geral, e o treinador dos azuis e brancos. Caso não tivesse justificado a decisão (fê-lo de forma pouco clara, ainda assim) estaria a ignorar os seus adeptos e esses não pode, nem deve, ignorar ou deixar de procurar fazer-se entender junto deles.

O segundo e maior erro que cometeu foi querer justificar a sua decisão comparando-a com a situação que se passa num rival. Referir que Júlio César também está no banco e tem 26 títulos não é mais do que o discurso do coitadinho, a mim apontam o dedo e ao treinador do Benfica não. Obviamente ninguém pode apontar o dedo a Rui Vitória por tirar um guardião veterano, que claramente já não está em condições físicas de continuar a exercer a profissão e cuja qualidade decresceu de forma assustadora nos últimos dois anos, lançando-se a questão de ser o exemplo de um jogador que não sabe sair por cima e acabará a carreira como alguém que nos últimos tempos apenas se arrastou nos relvados.

Já Casillas é um guarda-redes veterano em pleno nas suas capacidades. Que pelo menos no ano passado e neste foi um bastião da segurança defensiva da sua equipa. E que pelo rendimento em campo (é impossível avaliar a postura nos treinos ou fora do campo pois aí entramos num campo privado ao qual não temos acesso) não há a mínima justificação para proceder à sua substituição. Ainda para mais num momento em que o Porto está a dominar a Liga NOS e estava com uma prestação equilibrada a nível da Liga dos Campeões, com tudo em aberto em termos de passagem à fase seguinte (que se mantém, contudo).

Também a comparação entre José Sá e Mile Svilar, pela diferença de tratamento da comunicação social aos dois erros dos guarda-redes dos dois candidatos ao título, é um péssimo exemplo de Sérgio Conceição, mais uma vez para sacudir água do capote quando não tinha que o fazer se tivesse sabido argumentar a decisão que tomou.

É óbvio que o tratamento a um jovem de 18 anos que fez na quarta-feira o segundo jogo da sua carreira de profissional não pode ser igual à de um guarda-redes de 24 anos, que tem cerca de 30 internacionalizações nos últimos dois escalões antes da Seleção A, mas ambos já seniores, escalões onde jogou 4 jogos num Mundial sub-20 e 5 jogos num Europeu Sub-21, onde Portugal até foi finalista vencido. E que tem três épocas de Liga NOS, ainda que nunca tenha sido titular indiscutível do Marítimo. A que se juntam três anos de utilização regular na equipa B dos insulares na Segunda Liga, onde somou 75 jogos, mais 17 na equipa secundária do FC Porto, na mesma divisão.

Tudo somado, a comparação roça o absurdo e não é mais do que a continuação do estilo de comunicação do FC Porto ao longo dos últimos meses, infelizmente um péssimo exemplo de como se faz comunicação, em que se fala mais da casa do vizinho do que da própria casa.

Concorde-se ou não com a decisão, Sérgio Conceição é soberano e ninguém pode questionar a decisão e muitos menos os motivos da mesma. A única análise que pode ser feita é sobre se José Sá poderá manter o nível defensivo dos dragões semelhante ao que tem revelado desde a temporada transacta. A minha opinião é que não. Um guarda-redes é muito mais do que o último elemento de uma equipa e as suas características são decisivas para a forma como a equipa joga.

Aí sim um bom exemplo é olhar para o rival da Luz. Com Svilar já se percebeu que a defesa pode voltar a jogar subida, dando menos espaço entre linhas, com os sectores mais próximos e coesos. O inverso do que se verificou com Varela e Júlio César, ambos sem capacidade para serem o líbero da defesa, protegendo a profundidade nas costas da linha defensiva dos encarnados.

José Sá e Casillas até podem não ser tão diferentes a este nível, mas o capital de confiança da defesa no internacional espanhol é muito diferente do internacional sub-21 luso. Isso foi gritante em Leipzig, com a defesa a cometer erros que não são habituais nos azuis e brancos. E certamente o erro inicial de Sá que originou o golo dos alemães não aumentou esse fraco capital de confiança no guarda-redes curiosamente formado na Luz.

Se a opção é para contunuar ou não, saberemos dentro de poucas horas quando sair a constituição do onze do FCP frente ao Paços de Ferreira, mas seria mais difícil ainda de entender se voltasse a apostar em Casillas.

sexta-feira, outubro 20, 2017

O leão que perdeu o apetite


Ao longo das últimas semanas, a crise, ou fase menos boa como lhe chama Rui Vitória, do Benfica tem enchido títulos e manchetes de jornais, ocupado horas nas TV's e rádios e tem sido um fantástico escape para a menor atenção que é dada ao rival da Segunda Circular.

Mas a verdade é que os leões parecem mergulhados numa crise de apetite de golos ao longo do último mês. Em cinco dos últimos cinco jogos, ficaram em branco em três (Marítimo para a Taça CTT, Barcelona na Champions e Porto na Liga NOS) e noutras duas ocasiões apenas chegaram ao golo graças a autogolos (Moreirense na Liga NOS e Juventus na Champions). O outro jogo foi com o Oleiros para a Taça de Portugal, que obviamente não deve ser levado em linha de conta dada a fragilidade competitiva do rival e pelo facto do Sporting nem ter apresentado o seu onze base.

O motivo mais claro para perceber esta falta de produção ofensiva dos de Alvalade prende-se com a pouca capacidade goleadora de Bas Dost face ao que apresentou na temporada anterior. O avançado holandês tem quatro golos na Liga NOS, mas dois são de penalty. Apenas em Guimarães bisou sem nenhum dos golos a surgir da transformação de uma grande penalidade. E a estes golos soma apenas mais um em Bucaresta no playoff da Champions. Muito pouco para quem lutou pela Bota de Ouro até ao último segundo com Messi em 2016/017.

A questão que fica é se se trata de um período de menor fulgor do avançado holandês ou se o jogador está a ser vítima do novo sistema. Aposta mais na segunda. Várias vezes aqui escrevi que a saída de João Mário desequilibrou a equipa gravemente no ano passado. Gelson Martins substituiu o médio do Inter dando outro rasgo ofensivo e capacidade de desequilibrar na frente, através da técnica e da velocidade, mas deixou os leões desequilibrados defensivamente, deixando de ter um terceiro médio a fazer movimento interiores, o que condenou Bryan Ruiz ao desterro a que se encontra envolvido atualmente.

Por isso, Jesus teve como principal preocupação este ano recuperar a eficácia defensiva que lhe custou a ambição de lutar por mais há um ano. Mas essa eficácia não só está consolidada, como se pode ver pelos golos que sofreu de rajada em alguns jogos, como em Santa Maria da Feira ou em Atenas, como surge não só à custa da introdução de novos elementos no quarteto defensivo, mas também à alteração do meio-campo.

Acuña veio fazer o que João Mário fazia em termos de equilíbrios, no flanco contrário, mas a saída de Adrien encurtou a equipa no corredor central. Mais ainda quando o treinador dos verde-brancos começou a apostar em William para 8 e Battaglia para 6. Ambos são muito curtos em termos de condução e transporte, assim como na capacidade de passe. A isto junta-se Bruno Fernandes, um jogador muito distinto de Teo Gutierrez, Bryan Ruiz ou Alan Ruiz. O médio português é mais um 10 que um 9,5 como Jesus gosta de chamar a quem joga junto do seu ponta-de-lança. Esse facto entrega também mais à marcação Bas Dost, com menos jogadores a surgirem na área para abrir espaços para o gigante do país das túlipas.

Ora a menor eficácia dos leões coincide também com o desaparecimento da lista de marcadores de Bruno Fernandes. O jogador que chegou de Itália foi um verdadeiro bombardeiro ao longo de várias jornadas, inscrevendo quase sempre o seu nome na lista de marcadores de cada partida. Algumas delas que até abriram com um golo seu para tornar jogos teoricamente difíceis em menos complicados, como a deslocação à Cidade-Berço.

O Sporting revela muitas dificuldades no jogo interior no último terço e obviamente que nem sempre iria surgir a bomba de Bruno Fernandes para resolver. Os jogos em casa dos leões para a Liga NOS e mesmo no Playoff da Champions são o melhor exemplo dessas dificuldades. Jogos com poucos golos, onde o Sporting foi incapaz até à data de marcar mais do que dois golos num jogo no Estádio José de Alvalade. Em sete partidas no covil do leão para as várias competições, o pecúlio é confrangedor. Apenas cinco golos marcados e esta soma refere-se apenas a três jogos (1 golo ao Setúbal, 2 ao Estoril e 2 ao Tondela) com quatro jogos em branco (Steaua, Marítimo, Barcelona e Porto)! É certo que os jogos com os catalães e os dragões são de elevadíssimo grau de dificuldade, mas são nulos ofensivos a mais para uma equipa com as ambições do Sporting.

Na minha opinião, para mudar esta fase menos concretizadora, a única hipótese será recuar Bruno Fernandes para 8, tirar Battaglia, e colocar alguém mais próxima de Bas Dost, seja Podence, Gelson Dala ou Iuri Medeiros. Curiosamente, a melhor opção até parece ser Bryan Ruiz, mas o costa-riquenho não parece ter hipótese de deixar o ostracismo a que foi vetado.

Os números não mentem, e não fossem dois penalties (bem assinalados diga-se) salvadores nos descontos com Setúbal e Feirense, e apesar da enorme crise exibicional que o tetracampeão tem vindo a apresentar, o rival da 2ª Circular poderia estar atrás dos encarnados, sem que se leia uma linha de qualquer especialista sobre esta outra crise de um grande de Lisboa... Seguem-se quatro jogos de enorme grau de exigência (Chaves, Juventus e Braga em Alvalade e Rio Ave fora, entre Chaves e Juventus), onde os leões terão de dar uma resposta cabal a este momento pouco convicente, sob pena de hipotecarem uma temporada onde, mais do que ninguém têm obrigação de ser campeões dado o elevadíssimo investimento em contratações e salarial, muito superior aos dos rivais que lutam pelo título.

segunda-feira, setembro 25, 2017

O maravilhoso mundo de Fejsa


Uns têm Messi. Outros têm Cristiano Ronaldo. Ainda há quem tenha Neymar. Ou Dybala. Ou Lewadowski. Na Luz, há Fejsa. Pode parecer estranho comparar o trinco sérvio a estes craques mundiais? Talvez! Mas só se o leitor for desatento. Pois a preponderância deste jogador na equipa tetracampeã nacional não é menor que a dos astros elencado em cima. Sem Fejsa, o Benfica é um. Com Fejsa é outro.

A foto usada para ilustrar é antiga, do ano da chegada do médio, proveniente do Olympiakos, à Luz, em 2013. Mas é perfeita para o que aqui destacamos. O Benfica atual (entenda-se, a equipa de futebol) é Fejsa. E mais 10. Não é Jonas, o homem dos golos, nem Pizzi, o estratega da equipa, nem Luisão, o patrão da defesa.

Ao longo das últimas semanas, o médio sérvio esteve de baixa. Falhou vários jogos, o que coincidiu com um período negativo dos encarnados. Um empate para a Liga, uma derrota na Champions, seguida de outra para a Liga, e um empate para a Taça CTT. Pelo meio, vitória com péssima exibição frente ao Portimenense, também para a Liga NOS. Sem o sérvio, nada parece funcionar. Pizzi e Jonas baixam o seu nível de jogo de forma gritante. A equipa não consegue construir pois o médio internacional português vê-se obrigado a tarefas que normalmente não são suas e toda a manobra ofensiva das águias fica comprometida. E defensivamente, num ano em que houve várias vendas não supridas de forma direta no mercado de transferências, também se torna óbvia a ausência do trinco dos encarnados, onde um meio-campo permissivo expõe a defesa a situações de desequilíbrio.

Fejsa regressou há competição um mês depois frente ao Paços de Ferreira no passado sábado. E de repente, toda a equipa se iluminou. Pizzi fez o melhor jogo do último mês (mesmo não estando no seu melhor momento de forma). Jonas voltou a ter maior capacidade de desequilibrar na frente. Apesar de também não estar no pico. Até André Almeida se viu bem mais solto ofensivamente do que nos últimos jogos.

Diz a estatística que Fejsa recupera em média 2,3 bolas por jogo (só no sábado foram quatro recuperações, algumas em terrenos bem adiantados). Danilo, do FCP, apenas apresenta uma média de 1,3, enquanto William Carvalho, do rival Sporting, 0,5! A diferença é óbvia entre os três trincos dos candidatos ao título.

Para os que seguem menos os jogos do Benfica, a melhor forma de perceber esta preponderância é ver os números do jogador e do Benfica com ele em campo nestas cinco épocas na Luz, onde foi campeão todos os anos (chegou no ano do arranque da série do Tetra), depois de já o ter sido nos seis anos anteriores (3 pelo Olympiakos da Grécia e 3 pelo Partizan de Belgrado da Sérvia).

Ora, no primeiro ano, com Fejsa como titular, em 15 jogos, zero derrotas e apenas três empates. No ano seguinte, em 2014/2015, devido a lesão gravíssima, apenas somou seis presenças na Liga NOS, e apenas uma a titular, curiosamente no jogo do título. Porém, com a chegada de Rui Vitória e um menor número de lesões graves, o sérvio assumiu em definitivo o papel de estrela maior desta equipa. Em 2015/2016, dos 19 jogos em que participou na Liga NOS, foi titular em 15, apenas empatando um. Já no ano passado, foi titular em 25 das 34 jornadas, e somou as duas primeiras derrotas como titular na Luz. Ao fim de quatro épocas e num total de quase 60 jogos! Apenas duas derrotas.

É caso para dizer que os números falam por si. A sua leitura de jogo, a capacidade tática ao nível de um predestinado, fazem de Feja um jogador único. Não fossem as lesões e há muito que não estaria na Liga portuguesa com toda a certeza. A sua propensão para estar lesionado limitou-lhe a carreira. Caso contrário estaríamos a falar de um jogador de um das equipas de top mundial.

Afirmar que um jogador com as suas características é o melhor de uma Liga é arriscado. Talvez polémico. Pois decisivo costumar ser quem marca golos. Quem desequilibra no último terço do terreno. Mas na minha opinião Fejsa é de longe o melhor jogador da Liga NOS. Não o mais brilhante. Não o que mais dá nas vistas. Mas sei dúvida o mais importante. Nenhum jogador é tão decisivo na manobra de uma equipa da Liga portuguesa. Porque Fejsa não só joga muito, como coloca toda uma equipa a jogar a um nível muito superior.

terça-feira, setembro 12, 2017

Um playoff antecipado


Pode parecer uma provocação, mas não é mais do que uma constatação da realidade. O jogo de hoje entre os gregos do Olympiakos e o Sporting acaba por ser quase a primeira mão do playoff de acesso da Liga Europa. Olhando para o grupo dos leões, parece utópico pensar em mais do que o terceiro lugar do grupo. Um empate que seja contra o Barça ou Juventus é quase uma vitória para o Sporting ou para os gregos.

Como tal, o Sporting tem hoje a primeira de uma final que será terrível. Acima de tudo pelo ambiente que irá enfrentar. Jogar na Grécia, como na Turquia, seja em que estádio for, é muito complexo pois o caldeirão que fervilha nas bancadas intimida o mais arrojado dos homens.

Jorge Jesus apostou forte o ano passado e deu uma réplica interessante frente a Real Madrid e Dortmund, mas em especial no caso dos espanhóis, a sua sobranceria ia custando caro. É difícil acreditar que Juventus e Barcelona repitam a gracinha sob pena de saírem penalizados. Como tal, o jogo de hoje tem de ser encarado com o mais importante. Sair de Atenas com pontos será meio caminho andado para assegurar a Liga Europa e aí, apesar de nomes como Milan ou Arsenal, os rivais são na sua maioria mais acessíveis. E Jesus sabe bem o que é chegar à final dessa competição.

Resistir a uma pressão inicial forte que se adivinha e conseguir anular Fortounis, o craque dos gregos, serão as chaves do sucesso na Grécia. Uma derrota não deita nada a perder, mas reduz a margem de erro dos leões e obriga a vencer em casa os gregos por vantagem superior, isto se nenhuma das equipas conseguir o tal milagroso ponto num dos embates com os favoritos.

A minha grande dúvida é, confirmando-se a dupla William-Bruno Fernandes como duplo pivot do meio-campo, se conseguirão suster o meio-campo contrário num jogo com este nível de dificuldade. A esse tema voltarei em breve mas em relação ao jogo de hoje, seria mais avisado do técnico dos de Alvalade juntar Battaglia a William Carvalho, deixando Bruno solto para o que melhor sabe fazer: comandar o jogo ofensivo sem enorme desgaste defensivo.

sábado, setembro 09, 2017

Contabilidade criativa




Aos adeptos de futebol pouco ou nada interessam as contas. Interessa se ganham, se perdem, se jogam bem ou mal. A maioria é leiga em matéria económica e nem sequer tem qualquer interesse nisso. Desde que a bola entre, tudo vai bem. Se não entra, as contas continuam a ser a última coisa para a qual olham. O problema maior é que sem contas bem geridas, a bola deixa de entrar, a equipa deixa de jogar, e corre riscos maiores...

Vem esta introdução a propósito da apresentação de contas da SAD do Sporting Clube de Portugal. E merece uma segunda introdução, a ignorância dos jornalistas desportivos em ler os resultados que lhes são apresentados, e incapacidade em fazerem as questões que realmente importam, ao invés de tomarem como bons os destaque que o clube lhe apresenta. Isto é válido para o Sporting, como qualquer outro clube. Até jornalistas económicos chegam a ignorar os pontos negativos de um R&C se forem bem mascarados por uma qualquer empresa de topo de qualquer sector da indústria portuguesa... e falo por experiência própria.

Bom, foi esta quinta-feira que Bruno de Carvalho e a sua direção apresentaram aos jornalistas os números do último exercício, algo que costuma só acontecer no início de outubro. E o maior elogio que pode ser feito a estas contas é que quem as apresentou tem uma capacidade na área da cosmética acima da média. Essencialmente porque quem recebe a informação não percebe nada do que está a ouvir nem a grande maioria de quem lê as notícias que são produzidas por estes.

Destacou Bruno de Carvalho que as vendas foram as melhores de sempre (o que é verdade mas omitindo que cerca de 30% do seu valor total não entrou nos cofres do clube, o que contrasta com a sua afirmação de que não aceita intermediários nem paga comissões), que as receitas de TV dobraram (esquecendo-se de referir que antecipou 30 milhões de um contrato que nem sequer entrou em vigor, hipotecando já 60 milhões do contrato celebrado há um ano, o chamado Factoring). E a obra de arte acaba por ser contabilizar receitas da participação na Champions que foram todas penhoradas pois dizem respeito à dívida à Doyen (17M€) pelo que o dinheiro em causa nunca entrará nas contas do clube ou deviam aparecer noutra rubrica que não a das receitas.

A esta contabilidade criativa, pasme-se, considera o líder do clube que inverteram a tendência do seu antecessor, de má gestão, quando o passivo do Sporting aumentou mais de 60 milhões num ano só! Foi assim também com o FC Porto no último ano e viu-se onde terminou essa gestão com a intervenção da UEFA. E desde que Bruno de Carvalho está à frente dos destinos do clube já aumentou o passivo em 100 milhões.

Os resultados anuais, sem transferências, dão um prejuízo de 17 milhões, muito graças a um aumento exponencial dos custos com salários (15M€), bem demonstrativo do forte investimento no plantel, que supera já os 60M€ com custos salariais. E no próximo ano estarão nestas contas Coentrão, Matthieu e Doumbia, que juntos superam os 10M€/ano de massa salarial o que atirará estes custos para valores superiores aos 75M€.

Este investimento também é visível nas aquisições para a presente época, com Bruno Fernandes, Doumbia, Battaglia, Mattheus Oliveira e Piccini a ultrapassarem os 40 milhões gastos, a que se junta Acuña que fará disparar este valor para cima dos 50 milhões!

O resultado final é positivo, 30 milhões de euros, mas se descontarmos o valor das receitas da UEFA, esse valor reduz-se para 12 e contando que 30 são provenientes de receitas de TV de anos futuros, o que fará com que daqui a uns anos já não haja receitas para antecipar, o cenário deve ser preocupante para os adeptos dos leões que certamente não quererão passar por outro risco de falência como há uns anos. A dívida foi negociada e transformada em VMOC's mas daqui a 9 anos terão de ser adquiridas ou o clube perderá a posição maioritária. Ora coincidindo isso com a altura em que as receitas de TV já foram todas antecipadas (se mantiverem este ritmo), a questão será qual o futuro dos leões. Ou os sócios deixam de ter maioria ou o final pode ser negro...

P.S.: De referir que esta criatividade não surpreende quando o clube anuncia a venda de Adrien por valores que podem atingir os 29,5M€ mas só 20 são garantidos, 5 são por objetivos e 4,5 referem-se ao facto do jogador ter abdicado de verbas a receber com uma eventual venda. Ou seja, deixou de haver um hipotético custo... mas esse dinheiro jamais é lucro ou receita pois nunca entrará nos cofres.

sexta-feira, setembro 08, 2017

A manta curta do dragão de Sérgio Conceição


É inquestionável a pujança do FC Porto neste arranque de temporada. Mérito para Sérgio Conceição que com as mesmas peças de Nuno Espírito Santo e recuperando alguns proscritos do ex-treinador, que regressaram de empréstimo. Um estilo de jogo muito agressivo, com pressão alta e recuperação da bola em terrenos adiantados, para causar maiores desequilíbrios com o adversário descompensado. Falta apenas melhorar a eficácia que ainda é baixa para o número de oportunidades criadas, como as duas vitórias fora por 1-0 demonstram, onde podiam os dragões ter vencido de forma confortável.

À luz destas exibições e dos resultados obtidos, é natural que para muitos analistas os azuis e brancos surjam como favoritos, dado terem um onze forte, com uma tremenda estrutura defensiva, onde assenta o sucesso das equipas campeãs. E um ataque pujante, com dois (de três contando com Marega) avançados fixos com grande capacidade física o que desgasta e muito as defesas contrárias.

Tudo são ingredientes para a receita de sucesso que os da invicta tanto desejam, o título de campeão que foge há já quatro temporadas. Porém há uma questão que parece esquecida à maior parte dos analistas e que poderá ser decisiva: o muito limitado plantel do FCP.

Apenas nas laterais defensivas há quatro opções de muito valor, onde baixas por lesão não deverão fazer grande mossa. Contudo, no centro da defesa há apenas a dupla Felipe/Marcano e o mexicano Reyes como alternativa, sendo que este último surge agora como opção para o posto de trinco, onde há outra lacuna, pois Danilo não tem um suplente com características semelhantes. A alternativa é André André, mas o médio não é um trinco de raiz.

Nas alas, há Brahimi e Corona, mas depois apenas Hernâni é um ala, com Otávio a aparecer como alternativa apesar de ser um 10. E no ataque, Soares e Aboubakar apenas têm Marega como opção o que é muito curto num sistema de dois avançados.

Em suma, e no momento em que começa a apertar o calendário, com o arranque da Liga dos Campeões, Sérgio Conceição estará certamente a pedir a todos os deuses que não haja lesões nestas posições pois a perda de 2 ou 3 peças-chave podem ser fatais nas suas ambições. Mais do que os rivais, a luta do FCP será mesmo com a capacidade de manter o curto plantel saudável. E mesmo sem lesões, será hercúlea a tarefa de Conceição em conseguir gerir tanta competição com tão poucos jogadores sem que haja quebras de rendimento, com a agravante do estilo de jogo asfixiante ser extremamente desgastante para a equipa.

O favoritismo dos dragões poderá ser medido em Novembro ou Dezembro. Até lá, é tempo de ver a resposta do Porto a estes desafios.

terça-feira, setembro 05, 2017

O leão que sofre de soluços quando está em casa



A paragem da Liga NOS para os jogos de apuramento para o Mundial 2018 marca a primeira pausa do campeonato português. Que coincidiu com o primeiro dos grandes a escorregar. Esse tem sido o tema de maior destaque nas análises feitas às primeiras quatro jornadas da Liga. Até porque para muitos o tetracampeão Benfica não supriu as perdas que teve na defesa e aparenta estar mais frágil que os dois rivais.

A classificação para já demonstra-o, mas analisando a dificuldade do calendários dos três crónicos candidatos ao título, e o nível exibicional, a conclusão até pode ser outra.

A procissão vai no adro e os dois pontos de atraso do Benfica face a Porto e Sporting pouco ou nada significam para já. Nos cinco primeiros jogos da época dos encarnados, apenas a receção ao Belenenses aparentava menor grau de dificuldade, o que veio a ser confirmado pela goleada infligida pelos homens da Luz aos azuis do Restelo. Porém, nas restantes partidas, a exigência foi máxima ou perto disso. Começou com a final da Supertaça frente ao Vitória de Guimarães, que jogou a um nível superior do que tem evidenciado na Liga, onde os encarnados se impuseram e conquistaram o troféu.

Seguiu-se a receção aos outros minhotos, do Sp.Braga, a melhor equipa da Liga NOS para além dos três grandes (pelo menos olhando para o seu plantel), e nova vitória e exibição de qualidade. Depois a primeira deslocação complicada, ao terreno do Chaves, com a vitória a chegar nos descontos, mas a pecar por tardia, naquela que para mim foi de longe a melhor prestação do Benfica na temporada até ao momento. E após a já referida goleada ao Belenenses, o empate em Vila do Conde, contra o único dos não grandes que se mantinha na frente. Uma primeira parte muito fraca, e uma segunda melhor mas insuficiente para garantir os três pontos. Em suma, um arranque nada fácil, mas exibições bem conseguidas e a mostrar o porquê do Benfica ser campeão. A perda de pontos não choca tendo em conta o campo em que aconteceu.

Já o Porto, teve um início avassalador. Exibições convincentes, até categóricas a espaços, e 100% vitorioso. Contudo, o calendário era bem mais acessível. Duas vitórias contra equipas menores em casa, Estoril e Moreirense, e duas vitórias fora, uma frente a um frágil Tondela, e outra bem difícil, em Braga, num jogo em que o Porto poderia ter vencido por outros números. O Braga tem um excelente plantel, mas mostrou algum desgaste dos vários jogos que já soma neste arranque, com duas eliminatórias da Liga Europa pelo meio. Claro que isso não tira mérito aos dragões nem belisca este arranque de grande qualidade.

Por fim, o Sporting, que tal como os azuis e brancos se mantém com aproveitamento máximo na Liga NOS. Ao contrário dos seus rivais, é aquele que menos tem convencido em termos exibicionais, talvez por ser o que mais alterações tem no seu onze base face à época anterior. O arranque nas Aves valeu mais pelo resultado que pela qualidade do seu jogo e uma semana depois, em casa, frente ao Vitória sadino, um verdadeiro Ai Jesus, com o domínio absoluto da partida e não resultar em grandes chances e a vitória a surgir apenas de penalty à beira do minuto 90.

Na semana seguinte, um golão madrugador de Bruno Fernandes lançou os leões para a melhor exibição da temporada, em Guimarães, mas é preciso ressalvar o início sofrível da equipa de Pedro Martins, que soma uma só vitória na Liga NOS, com a sua defesa num nível confrangedor.

O regresso a casa frente ao Estoril também esteve longe de entusiasmar. Os primeiros minutos pareciam conduzir a nova goleada, com 2-0 no marcador, mas um golo nos minutos finais a reduzir para a vantagem mínima o placard quase levou o leão a um colapso, com um golo do Estoril nos descontos a levar à ira os adeptos e Jorge Jesus, até que o vídeoarbítro repôs a verdade anulando o golo dos canarinhos obtido em posição de fora-de-jogo.

Pelo meio, o playoff de acesso à Champions, com mais uma paupérrima exibição em casa, no nulo contra o Steaua, e depois uma vitória por goleada em Bucareste, mas que disfarçou momentos de tremores dos leões, depois de permitirem a igualdade perante uma formação romena que, seja dita a verdade, teria dificuldades em ficar na primeira metade da tabela da Liga NOS.

Os resultados e as vitórias são o bálsamo de qualquer equipa. Mas as exibições dos de Alvalade deixam a questão. Será que as muitas alterações no onze explicam um arranque periclitante em termos exibicionais? Ou poderão ser o prelúdio do que se viu há um ano, em que o Sporting tinha sempre muitas dificuldades contra equipas que assumem uma toada claramente defensiva no Estádio José de Alvalade?

O plantel é mais rico do que há um ano, com mais opções, mas a saída de Adrien é difícil de suprir, pois ninguém no plantel tem as mesmas características e menos ainda a preponderância no balneário. Ora numa equipa com dificuldades em termos de equilíbrio como mostrou na época transacta, como será sem o fiel da balança da equipa? Mas isso será alvo de outra análise em breve neste blog.

Para já a certeza de que o arranque esteve muito longe de ser brilhante e só mesmo os resultados disfarçam essa realidade. Com um grupo temível na Champions e um calendário um pouco mais exigente intramuros, com a receção ao Porto como ponto alto de dificuldade nestas primeiras jornadas, até dezembro estou certo que se perceberá se este será o Sporting de há dois anos ou o da época passada. Um é o dia e o outro a noite. Duvido que o deste ano seja um meio termo entre os dois.